Resenha|| Tartarugas Até Lá Embaixo


"Um dos desafios da dor, seja física ou psíquica, é que só podemos nos aproximar dela através de metáforas."

Título: Tartarugas Até Lá Embaixo
Autor: John Green
Editora: Intrínseca
Páginas: 272

Depois de seis anos, milhões de livros vendidos, dois filmes de sucesso e uma legião de fãs apaixonados ao redor do mundo, John Green, o autor do inesquecível “A Culpa é das Estrelas”, lança o mais pessoal de todos os seus livros: “Tartarugas Até Lá Embaixo”. A história acompanha a jornada de Aza Holmes, uma menina de 16 anos que sai em busca de um bilionário misteriosamente desaparecido – quem encontrá-lo receberá uma polpuda recompensa em dinheiro – enquanto tenta lidar com o próprio transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Repleto de referências da vida do autor – entre elas, a tão marcada paixão pela cultura pop e o TOC, distúrbio mental que o afeta desde a infância –, “Tartarugas Até Lá Embaixo” tem tudo o que fez de John Green um dos mais queridos autores contemporâneos. Um livro incrível, recheado de frases sublinháveis, que fala de amizades duradouras e reencontros inesperados, fan-fics de Star Wars e – por que não? – peculiares répteis neozelandeses.


Como você se sentiria se tivesse que viver constantemente com pensamentos intrusivos e inesperados, que atrapalham o seu dia a dia e o impede de realizar as atividades mais simples do cotidiano? Como viver sabendo que a qualquer momento você pode ter uma crise de ansiedade ou um ataque de pânico devido a algo que só existe em sua cabeça? Como lidar com o fato de que não temos controle sobre nossos pensamentos? E se não temos controle sobre os nossos pensamentos, então como saber se somos reais ou apenas uma máquina controlada por forças externas?

Pode parecer assustador para você, mas é assim que Aza Holmes passa os seus dias, sempre pensando, sempre se enrolando numa espiral de pensamentos que só se afunila, cada vez mais, e a deixa sem controle sobre o que é real ou não, pois ela possui TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) e seus dias são regidos a margem dessa doença.
Eu sabia bem como era. Sempre me senti incapaz de pensar direito, de concluir os pensamentos, porque eles me vinham à cabeça não em linhas retas, mas num emaranhado de nós enroscados uns nos outros, em areia movediça, sendo engolidos por buracos negros.
 

Aza e Daisy são melhores amigas desde o fundamental. Daisy aparece para Aza com um caso sobre um empresário muito influente, que havia desaparecido; e pede a amiga que a ajude a solucionar o problema, pois quem ajudar no caso, ganha uma recompensa de 100 mil dólares. Aza, embora pertinente, acaba aceitando, pois conhece o filho do empresário e sabe que Daisy precisa daquele dinheiro, então as duas vão em busca de Davis, para investigar se ele sabe alguma coisa ou se elas  conseguem descobrir o paradeiro do seu pai.

É a partir daí que elas criam uma conexão mais forte com Davis, compreendendo seu lado, vendo como ele estava lidando com o desaparecimento do seu pai e tudo mais. Portanto, o livro se inicia com esse caso mas não fica preso nele, não é o foco do enredo.
Davis tinha razão: no fim, todo mundo desaparece.
Pelo fato de possuir TOC, Aza vive seus dias sempre preocupada e amedrontada. Ela tem um medo muito grande de contrair alguma bactéria e por isso está sempre verificando na internet sobre os sintomas de alguma delas para saber se a contraiu ou não, isso causa muita ansiedade, pois impede que ela tenha relacionamentos. Ela sabe que no beijo milhares de micro organismos são repassados e isso causa muita angústia e pânico. Ela também não consegue ter alguém respirando perto do seu rosto, não consegue ter uma refeição normal sem começar a pensar se há alguma bactéria se infiltrando.

É muito difícil, não apenas para ela, mas para todos os que estão ao seu redor lidar com a sua doença, pois isto faz com que Aza fique presa no seu próprio mundo e não consiga se conectar com com as pessoas ao seu redor. Ela possui um corte no dedo e está sempre trocando o band-aid para que não pegue nenhuma bactéria, mas ao mesmo tempo que sabe que trocou, fica sempre em dúvida se realmente trocou ou não, se limpou o curativo ou não, então precisa estar conferindo o tempo inteiro. Em muitas de suas crises, ela abre o corte com a unha, para retirar o sangue "contaminado", então muitos momentos são bem pesados, pois vemos o sofrimento dela de perto.

Como uma fã do John Green e tendo lido todos os seus livros, esse foi definitivamente o que mais gostei, porque trata de um transtorno mental super importante, mas que é difícil de ser abordado, então poder acompanhar assim, de cara a cara, foi uma experiência muito enriquecedora.

Muitas vezes as pessoas falam sobre TOC no senso comum, como se fosse algo super rotineiro, mas poucos realmente sabem como é ter que lidar com o TOC em toda a sua solidez, ter que viver com pensamentos intrusivos o tempo inteiro, não só quando você ver algo que o deixa desconfortável, mas o tempo inteiro, sem nunca parar. 

Esse assunto é um pouco delicado para mim por motivos pessoais, e por isso, antes de ler tive que conversar com pessoas que já haviam lido para saber como era abordado o TOC na obra, pra saber se iria conseguir ler ou não. Eu consegui, embora tenha sido difícil em algumas partes, mas fico feliz de ter lido porque vai acrescentar muito na minha vida, é sempre bom termos conhecimentos de coisas desse tipo. 

Portanto, não é surpresa dizer que indico o livro a todos que gostam de histórias pesadas que nos ensinam algo e que nos modifica com a forma que enxergamos a vida. O final é maravilhoso, um dos melhores finais que já li na vida, pois há uma mistura do John com a Aza e isso me surpreendeu bastante. A capa é maravilhosa, pois reflete aquilo que o livro trata e o título também é incrível e quando o entendemos, ficamos maravilhados com tamanha poesia. John Green realmente se superou nesta obra, e já não vejo a hora de indicá-la para todo mundo.
Você se lembra do seu primeiro amor porque os primeiros amores mostram - provam - que você pode amar e ser amada, que nada nesse mundo é merecido exceto o amor, que o amor é ao mesmo tempo como e por que você se torna uma pessoa.


Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.