Resenha || Sol e Sonhos em Copacabana


“Jovem, aos trinta e seis anos, Jean-Jacques possuía um temperamento romântico. [...] temperamento do pai, para quem a vida era algo mais interessante que a chicana política.


Título: Sol e Sonhos em Copacabana
Autor: Aliel Paione
Páginas: 384
Editora: Pandorga


Chegando ao Brasil incumbido ao papel de Consultor Econômico da Embaixada Francesa, Jean-Jacques Chermont Vernier sente-se maravilhado por aspirar uma nova terra de renovação e sonhos. Após um ano longe do seu enfadonho trabalho que não lhe alimentava a alma, na França, que vivia a sua Belle Époque. Jean sente-se maravilhado e vivaz com a beleza natural que o Rio de Janeiro do século XX tinha a oferecer. Até que seus sentidos veem-se ainda mais inebriadas ao avistar Verônica, uma bela morena sob a janela do cabaré Mére Louise.

Encantado com a sua beleza, Jean decide voltar durante à noite e descobrir quem era a misteriosa mulher que lhe arrancou o fôlego. No entanto, um nome e um sorriso não foram as únicas coisas que lhe tirou, mas uma desafiadora informação: Verônica nada podia lhe oferecer por ser amante do senador José Fernandes Alves de Mendonça, muito chegado ao Ministro da Fazenda de Campos Sales, Joaquim Murtinho, nas negociações.



Não obstante, tendo seu coração roubado por esta nativa brasileira, o fato que afasta muitos homens de se aproximarem de Verônica nada surti efeito sobre Jean-Jacques, que logo corre atrás de Verônica para professar o seu amor e conquistá-la. Sem levar em conta, quantas coisas estão em jogo pela importância que o senador tem no cabaré assim como na construção da vida de Verônica ao longo de três anos passados, confiando-se na discrição, pela qual o senador não descobriria.

Jean-Jacques é um homem muito espirituoso. Ele procura sempre a beleza e a fluidez em tudo. Um verdadeiro idealista romântico. Seguiu a diplomacia por uma tradição materna e insistência desta. Mas sua alma residia na poesia, na arte, na contemplação e nos movimentos que se passavam na época. Um homem que em contato com as pessoas, lhes inspiravam a ter um olhar sonhador e positivo. Mas ele próprio começa a conhecer a insegurança, o ciúme e a incerteza ao se relacionar com Verônica, vivendo o momento sem nem imaginar o que lhe esperava no futuro.

"Iludido e surpreendido com tanta beleza, estava diante de uma daquelas raríssimas tiranas de corações, pois Verônica seria capaz de levar um homem ao céu ou ao inferno com a mesma facilidade com que as folhas secas, caídas sobre o chão, são sopradas pelo vento".

Verônica me lembrou muito Capitu e os seus “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, ela não entregava muita coisa sobre si mesma, nem seu endereço, nem a sua paixão e nem o seu coração. Talvez, por tão jovem ter entrado nessa vida e por ser “cortejada” pelos homens, por sua beleza distinta que logo lhe professavam o seu encanto, concedendo a ela uma irreverência e domínio. Tendo sua mãe e Louise, a administradora do cabaré, lhe ensinado a não confiar nos homens e a ser cautelosa, ela passa um ar de quem prefere segurança à amor, o que vai de encontro a Jean-Jaques, um homem que vive o momento e a ama avassaladoramente, propondo-se até mesmo a largar o próprio emprego para ter uma vida com ela. Assim, a jovem Verônica pondera e se entrega em uma aventura. Embora a imagem de Mendonça, o seu amante senador, paire sobre sua relação escondida com Jean, assim como na sua vida.

Mendonça é a marcante figura política da época que visa moldar a economia e as negociações atendendo também aos próprios interesses (semelhanças com a realidade são mera "coincidências"...). Mas esse não é o único fantasma que paira sobre Jean e principalmente Verônica, por Mendonça ser um homem respeitável por aquela sociedade e, muitas vezes, moldar todo o mundo de Verônica como é. Sobre um corpanzil já avançado, Mendonça esconde desejos e práticas "peculiares" e um humor que ocasionalmente torna-se obscuro.

Não nego que apesar de ser uma leitura que em pouquíssimas horas já tinha lido dezenas e dezenas de páginas, a leitura na primeira metade do livro me foi enfadonha. Não consegui desenvolver interesse por Jean, pela forma vivaz como ele olhava tudo, e como se apaixonou loucamente assim que pôs os olhos em Verônica; embora tenha sentido pela forma como ele marcou algumas pessoas. A narrativa, para mim, só ficou de fato interessante pela minha curiosidade por Verônica e o motivo de suas escolhas. Era uma personagem que não entregava nada concreto sobre si no início, mas que recebeu foco na metade do livro e mostrou suas motivações e mais de sua personalidade sensual e dominante, mais madura, disposta a arriscar-se, influenciada pela vivacidade que Jean lhe mostrou da vida, assim como o seu amor.

Cada um é envolvido pela leitura de uma forma diferente, e esse livro não foi um dos esperados para mim, mas não foi desagradável. Portanto, recomendo àqueles que possuem um interesse pelo século XX, visto que há descrições sobre o ambiente da época, a miscigenação, costumes e intrigas (coloca intrigas) da época, discussões e críticas politico-econômicas que tangem ainda a nossa realidade. Assim como aqueles que querem sentir-se intrigados por Capi... Verônica.


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