Resenha|| Tartarugas Até Lá Embaixo


"Você é a pessoa de verdade tanto quanto qualquer outra, e suas dúvidas a tornam ainda mais real, não menos." (p. 158)

Título:Tartarugas Até Lá Embaixo  
Autor: John Green
Editora: Intrínseca
Páginas: 256

Depois de seis anos, milhões de livros vendidos, dois filmes de sucesso e uma legião de fãs apaixonados ao redor do mundo, John Green, autor do inesquecível A culpa é das estrelas, lança o mais pessoal de todos os seus romances: Tartarugas até lá embaixo.
A história acompanha a jornada de Aza Holmes, uma menina de 16 anos que sai em busca de um bilionário misteriosamente desaparecido – quem encontrá-lo receberá uma polpuda recompensa em dinheiro – enquanto lida com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).

"Tartarugas Até Lá Embaixo" mostra a realidade de uma adolescente com TOC que não consegue controlar os próprios pensamentos, quando estes entram em espirais infinitos. Aza Holmes, ainda está no ensino médio, mas já pensa na faculdade e no quanto irá gastar para conseguir se formar. Ela também sofre quando pensa que sua amiga Daisy tem menos condição financeira que ela e precisa trabalhar num lugar horrível para poder juntar dinheiro para a faculdade. 

É quando as duas descobrem que o sumiço do bilionário Russell Pickett pode acarretar em uma boa quantia para elas que poderá ajudá-las no futuro, pois, está sendo paga a quantia de cem mil dólares para quem der qualquer informação sobre o paradeiro do empresário. Daisy que já deseja esse dinheiro mais que qualquer outra coisa, não perde tempo e convence Aza de que elas precisam começar uma investigação o mais rápido possível, levando a amiga a entrar  em contato com a única pessoa que talvez possa ter alguma informação que as direcione na investigação: o filho mais velho de Russell, Davis Pickett. 

Na infância Davis e Aza foram muito amigos, brincavam juntos, andavam de barco. Mas as circunstâncias os afastou e essa é a chance de se reaproximar do amigo e ainda garantir uma bolada em dinheiro. Enquanto investiga o desaparecimento do bilionário com a amiga, Aza se esforça para manter os espirais longe de seus pensamentos, pois quando começam é uma dificuldade/sofrimento para parar. Ela tenta de toda forma ser uma boa pessoa, uma boa filha, uma boa amiga, mas, na maior parte do tempo, presa em sua própria mente não tem como dar o seu máximo. 

"Qualquer um pode olhar para você, mas é muito raro encontrar quem veja o mesmo mundo que o seu." (p.16)

Nessa correria de reencontros e espirais, Aza vê o fortalecimento de sua amizade acontecer e um sentimento há muito abandonado ressurgir. Ela terá que lidar com isso, sem saber muito o que fazer, se esforçando para ser ela mesma. 



Mais um belo livro do nosso querido João Verde. Não vou mentir pra vocês, estava com medo de ler esse livro. O autor passou muito tempo sem lançar nada, e após todos esses anos era de se esperar que os leitores (ao menos eu) ficassem ansiosos e com receio ao mesmo tempo. Digo mais: essa foi uma leitura super agradável e que vale a pena ser lido.

A amizade é um tema bastante recorrente nas obras de Green, e não seria diferente nessa. Tornando-se fácil a identificação com o relacionamento dos personagens. Daisy é aquela amiga impulsiva e espontânea, que alegra e nos empurra pra frente, que não nos deixa ficar de cabeça baixa chorando pelos cantos, ela é super feliz e sem dúvidas a presença dela na estória e na vida de Aza importantes. A protagonista por outro lado é mais quieta, tímida, e por isso Daisy é tão crucial na vida dela.

"Eu era o peixe, infectado por um parasita, nadando próximo à superfície, querendo ser devorada." (p. 126)

Algo que me chamou a atenção nesse livro é o modo como temos alguns modelos de família apresentados na narrativa. Enquanto a mãe de Aza é super protetora, cuidadosa com ela e se preocupa muito com a filha; o pai de Davis antes de sumir, nunca ligou a mínima pra eles e não tinha preocupação nenhuma com ele e com seu irmão, que mesmo diante de todo abandono do pai, ainda deseja que ele volte.

Por pensar que o dinheiro é suficiente, muitos pais se afastam dos filhos e, infelizmente, não dão aquilo de mais valioso: amor e atenção. Às vezes tudo que o filho quer é um abraço de consolo ao invés do sapato mais caro ou roupa da moda. Não dá pra suprir a ausência com coisas materiais, não dá para não participar da vida dos filhos e achar que tudo bem. As pessoas estão tão preocupados em ter mais e mais, que esquecem que não dá pra comprar os momentos que perdemos.


Uma das coisas que eu também gostei muito foi a abordagem sobre TOC que a narrativa traz. Essa foi a primeira vez que li algo com essa temática, e gostei muito! Principalmente porque isto acontece com a personagem que narra os acontecimentos, então dá pra ter uma maior noção de como tudo acontece na cabeça de que tem essa doença. TOC não é algo fácil e mesmo com o tratamento, ainda se torna algo difícil para ser controlado, mas vale sempre a pena buscar o tratamento para tentar resolver ou amenizar a situação. Imagino o quão doloroso pode ser essa doença e como pode privar as pessoas de tantas coisas. A pesquisa que o autor fez para construir a personagem certamente foi intensa e merece todo o nosso reconhecimento, pois a personagem consegue nos passar toda a realidade de uma pessoa com TOC.

"A gente sabe que tem um problema. Só não consegue descobrir o que fazer para consertá-lo. Porque pra gente não existe certeza." (p.191)

A capa apresenta o espiral que remete aos pensamentos de Aza, e o título do livro é bem curioso quando descobrimos a razão. A diagramação segue no padrão dos outros livros do autor, sendo bem confortável e familiar.

Mais uma belíssima história de John Green, que em breve terá sua adaptação para o cinema. Uma história sensível, que nos mostra a importância dos momentos, do amor e de não desistir. Um livro sobre seguir em frente apesar de tudo.


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