Resenha|| Instrumental


"Eu me odeio, sou elétrico demais, com frequência digo o que não deve ser dito, coço minha bunda nas horas menos adequadas (e depois cheiro o dedo), não consigo me olhar no espelho sem querer morrer. Sou um palerma, vaidoso, obsessivo comigo mesmo, superficial, narcisista, manipulador, degenerado, chantagista, chorão, carente, autoindulgente, perverso, frio, autodestrutivo."


Título: Instrumental
Editora: James Rhondes
Páginas: 288
Onde comprar: Amazon

“Fui estuprado quando era criança. Ao longo de cinco anos, tive sexo com um homem três vezes maior do que eu e trinta ou quarenta anos mais velho, contra a minha vontade, de maneira dolorosa, secreta, perversa, dezenas e dezenas de vezes [...] Mas o fato incontestável é que a música salvou literalmente a minha vida e, acredito, a vida de muitas outras pessoas. Ela provê companhia quando não se tem ninguém, compreensão quando se está confuso, consolo onde há aflição e uma energia pura e não contaminada onde há um vazio de devastação e fadiga.”



A Rádio Londres sempre me pega desprevenida quanto aos seus títulos cheios de polifonia sobre a vida de um autor ou mesmo seus personagens fantasiados, em meio a uma montanha russa de sensações. Em Instrumental mergulhamos no caótico mundo de James Rhondes. Uma narrativa melódica que equilibra o seu relato de vida, no qual endossa um pano de fundo musical quase silencioso.


 Rhondes acredita que a música lhe trouxe uma válvula de escape para amenizar o que ele chama de "fracasso". Entendemos o que ele chama de fracasso somente quando este (res)significa sua trajetória por meio de uma melodia gritante e silenciosa. Quando criança ele fora estuprado, depois entregou-se ao vício de bebidas alcoólicas e drogas. Fora internado em um hospital psiquiátrico e tentou suicídio cinco vezes. Não há glamour na dor. 


“Mas ouça o seguinte: pergunte a um cara que usou heroína durante anos e depois parou como foi que ele fez para conseguir parar, e isso será muito mais elucidativo que o conselho de algum clínico geral que se quer sabia como aplicar uma dose.”
O maior conflito interno de Rhondes era ele mesmo e não as pessoas ao seu redor. A culpa o assolava. Desde criança, ele não compreendia a razão de ter passado por tantas coisas ruins. Ele dialoga com o leitor entre o eu presente e o eu pretérito. É interessante perceber que o leitor se torna amigo íntimo do autor ao decidir percorrer os olhos até o final do livro. Os traumas psicológicos que James passou foram tão fortes que em alguns momentos sugam as nossas forças.  É preciso manter o fôlego ao decorrer dessa leitura. A fluidez de suas palavras não parecem pesar tanto quanto o seu passado. É isso que nos faz querer desistir de assistir algumas cenas do seu capítulo chamado: vida.

O impacto maior nessa leitura é a música como ÚNICO caminho para a "salvação". Por meio dela, o autor conseguiu se reerguer e narrar todo este trajeto sem sentir tanta "dor". Ora transformada em talento, Rhondes narra o seu processo catártico de modo a ressurgir das cinzas como uma fênix. Ele afirma que não foi fácil se manter lúcido e equilibrado. Para se manter de pé essa dor se multiplicava em mil acordes, nos quais a sua sensibilidade para a vida retornava.


Apaixonado pela música clássica, o autor cita, a cada capítulo, uma peça favorita do seu arsenal; como também apresenta vários artistas, aclamados nesse meio. Um ponto que me chamou atenção é que grandes artistas, antes do sucesso, tiveram uma vida miserável. Através da música conseguem esquecer (ou quase isso) suas doenças, problemas familiares e outros problemas que os levam a loucura. Essa linha tênue entre trabalho e loucura é quase imperceptível na obra. Rhondes afirma que o seu árduo trabalho nas composições musicais lhes trouxe algum sentido de vida.

Nos momentos finais do livro ele questiona o porquê decidiu escrever sobre a sua vida, aos 38 anos, somado a um passado carregado de cicatrizes. Ele justifica de forma bem humorada que a razão para tudo isso foi a sua loucura. Sem ela não teria conhecido a música e acertado as contas com o seu passado. Hoje, ele tenta manter-se equilibrado, mas não elimina seus traumas. Entendemos que apesar de não ser possível apagar ou borrar o passado, podemos pincelar um novo quadro com o chamado: recomeço. A música não apenas lhe trouxe o equilíbrio como mostrou-lhe a sensibilidade da dor e o sentido da vida.

Esse é um dos livros mais sensíveis e indescritíveis que já li. Não sei se é possível colocar em palavras as sensações vividas junto ao autor. Com uma capa rica em cores que denotam a cadeia musical, diagramação fantástica e revisão implacável esse livro promete não prometer! A leitura é mais recomenda para adultos, apaixonados por música e para os desejosos por biografia.



Um comentário:

  1. Oi Amanda!
    Já disse que esse é a melhor resenha de todos os tempos? Eu fiquei muito curiosa para ler esse livro quando li suas impressões, coisa que não tinha acontecido quando li a sinopse. Está aí a importância de blogs como o seu ♥
    É muito interessante conhecermos que, nem sempre, a vida de grandes famosos foram graciosas desde o começo.
    Vou anotar a dica.
    Beijos

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