Resenha || As doze tribos de Hattie


"A mãe e os filhos eram companheiros, igualmente carentes e vulneráveis, navegando juntos pelos dias. Mesmo agora que Floyd era adulto, havia uma cumplicidade entre ele e a mãe, e Hattie era a única pessoa no mundo com quem Floyd se sentia sereno." (p. 22)

Título: As doze tribos de Hattie
Autora: Ayana Mathis
Editora: Intrínseca
Páginas: 224
Em 1923, aos quinze anos, Hattie Shepherd deixa a Geórgia para se estabelecer na Filadélfia, na esperança de uma vida melhor. Mas se casa com um homem que só lhe traz desgosto e observa indefesa quando seu casal de gêmeos sucumbe a uma doença que poderia ter sido evitada com alguns níqueis. Hattie dá à luz outras nove crianças, que cria com coragem e fervor, mas sem a ternura pela qual todos anseiam. Em lugar disso, assume o compromisso de preparar os filhos para as calamitosas dificuldades que certamente enfrentarão e de ensiná-los a encarar um mundo que não os amará nem será gentil. Contadas em doze diferentes narrativas, essas vidas formam a história da coragem monumental de uma mãe e da trajetória de uma família.
As doze tribos de Hattie é o primeiro e único livro (por enquanto) da autora Ayana Mathis. O livro é classificado como romance, mas eu diria com mais precisão que é um livro de contos. Um dos pontos de maior relevância no livro, e que o dá crédito, é a descrição minuciosa da autora que não adere a distrações desnecessárias, mas há traços imprescindíveis para o conhecimento da complexidade dos personagens e dos ambientes.

Sou a amante das diversas óticas e o livro é enriquecido pelo fator narração que coloca cada personagem no palco central dentro do seu respectivo capítulo, mesmo tendo foco narrativo na 3ª pessoa. Como são 10 capítulos, dois deles são divididos para dois personagens e as 12 tribos de Hattie são formadas por seus filhos e netos, que têm por maior elo de ligação a própria Hattie.
"Eu sei, claro, que não são meus pensamentos. Sei que eles vêm do que quer que esteja controlando esse negócio, seja qual for esse mal." (p. 201)
É necessário elencar que a personagem principal não é uma matriarca tradicional, Hattie é tão singular que só pelo mistério de desvendá-la já vale a pena ler o livro. O primeiro capítulo narra a recente chegada dessa personagem a Filadélfia, terra que prevê uma esperança de vida fora do racismo sofrido na Geórgia (terra natal), tanto que é o nome dado a um dos gêmeos, primeiros filhos com August, seu marido. Todos os "contos" vem datados para compreendermos a progressão temporal. O início da história se dá cronologicamente em 1925 findando em 1980. 
"Minha mãe era uma mulher bonita; a casa era muito simples, pequena demais para ela. Fiquei olhando para ela; pela primeira vez entendi que minha mãe não possuía uma vida interior que não tinha nada a ver comigo ou com meus irmãos e irmãs." (p. 202)
O livro trata de temáticas variadas que são incisivamente problematizadas e questionadas como racismo, família, loucura, religião, adultério, pobreza e adoção. A forma como a autora expõe sutil ou explicitamente esses fatores é com um incrível poder de linguagem que cativa o leitor e o coloca em um horizonte de curiosidade e expectativa os quais não são frustrados, por mais que nem todos (ou quase nenhum) dos finais sejam felizes.
"Hattie sabia que os filhos achavam que ela não era boa pessoa - talvez ela nem fosse, mas não havia tempo para sentimentalismos quando eles eram mais novos. Ela os havia decepcionado de formas vitais, mas de que adiantaria passar os dias aos beijos e abraços se não havia nada para pôr na barriga deles?" (p. 215)
Os melhores capítulos (ou contos, como preferir), na minha opinião, são Floyd, Six, Ruthie, Ella, Cassie e Sala. E o que menos m instigou foi o de Franklin.

O texto é repleto de intertextualidades bíblicas desde o título até leves minuciosidades.
"Hattie era como um lago de gelo liso e prateado, sob o qual nada podia ser visto ou conhecido." (p. 216)
Os únicos problemas do livro são a capa que não se torna atrativa e não me remeteu a outra leitura da obra nem fez alguma associação com o texto. Senti falta de um sumário, por compreender a obra como um compilado de contos, os quais podem ser lidos isoladamente ou na ordem escolhida pelo leitor. Achei a sinopse e as outras notas nas abas muito cheias de spoillers, principalmente sobre o primeiro capítulo, e com aspectos textuais expressamente subjetivos que conjecturam sentidos que se permitem variadas interpretações através da escrita de Ayana Mathis.
"Uma nova geração tinha nascido, e persistiam as mesmas mágoas e a mesma dor. Não posso permitir. Balançou a cabeça. Não posso permitir." (p. 220)
Por fim, indico demais a obra As doze tribos de Hattie não somente para aqueles que apreciam ler sobre as temáticas já citadas, mas a todos os leitores de ficção com base na realidade.


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