Resenha|| Stoner



"Pode acontecer que um estudante, ao deparar com o nome , se pergunte distraidamente quem ele era , mas a sua curiosidade raramente irá além de uma pergunta ocasional." (p. 7)

Titulo: Stoner
Autor: John Williams
Editora: Rádio Londres
Ano: 2015
Páginas: 320

William Stoner, filho de humildes camponeses, destinado a trabalhar a terra como seus antepassados, quase por acaso acaba tomando um caminho diferente e, motivado por sua paixão pela literatura, torna-se professor universitário. Ele casa, tem uma filha, passa pelos altos e baixos da vida, adoece, morre.
Os cinquenta anos da vida de William Stoner são narrados com grande precisão e sensibilidade através de um estilo simples e elegante. São descritos seu progressivo e doloroso afastamento da família, as relações complicadas com os colegas, as amizades tragicamente marcadas pela guerra, a difícil vida conjugal, o intenso e impossível amor clandestino com uma professora mais jovem. Stoner reage às provações da vida com aparente impassibilidade e silencioso estoicismo, emergindo como um inesquecível e improvável herói da vida cotidiana.

               
           
Uma narrativa sensível e profunda, que nos faz enxergar a vida como ela é: crua e por inúmeras vezes difícil. Este é um livro que revoluciona não pelo seu enredo magnífico ou personagens heroicos, mas pela forma belíssima que John Williams construiu esta história, que mesmo sem grandes acontecimentos se encrava em nossos corações, nos fazendo vivenciar cada situação angustiante que o protagonista passa.

O enredo desse livro, se passa entre as décadas de 1910 e 1950, e conta a história de um humilde camponês: William Stoner. Nascido e criado em um ambiente rural, Stoner sempre esteve envolvido mo trabalho com a terra, ajudando aos seus pais na plantação e nos cuidados da fazenda em que morava. Ao ficar mais velho, com o incentivo do seu pai, ele foi para a cidade estudar, em busca de melhorar sua vida e logo descobriu sua paixão pela literatura, área na qual se tornaria doutor e lecionaria anos na faculdade que se formara.

Em meio aos seus estudos, Stoner conhece Edith com quem se casa e tem uma filha. Apesar do interesse que sua esposa mostrou antes de se casar, e todo amor que ela aparentava ter, logo se mostra inexistente, então temos acesso a um lado inesperado e extremamente rude de Edith. A relação entre eles vai ficando cada vez mais monótona e repetitiva, e mesmo com o nascimento de Grace as coisas entre o casal não melhoram. E isso, somente contribui para o afastamento de Stoner da sua família, e ele começa a ficar mais horas na faculdade para não ter que voltar pra casa.

"Mas eu pude ver o que se seguiu. Uma guerra não mata só alguns milhares ou algumas centenas de milhares de jovens. Ela mata algo num povo que nunca pode ser recuperado." (p. 43)

Eu poderia dizer qualquer coisa da história que jamais seria um spoiler, pois esse enredo não apresenta nenhuma surpresa ou acontecimento crucial. É a simples trajetória de alguém que teve uma infância difícil e uma vida muito apertada também. Eu vejo em Stoner um alguém único, que em determinada forma, assiste sua própria vida ser definida e baseada nas atitudes dos outros e não em suas próprias, e são poucos os momentos, em que ele se empodera e mostra alguma reação foram os meus favoritos na trama.

Edith é uma personagem em que cheguei a ter ódio. Por sua personalidade falsa e dissimulada, ela nos passa uma mensagem de que casou com Stoner apenas para fugir das regras e imposições de seu pai, o que sabemos que ainda é uma grande realidade entre nós. Por mais que estejamos vivendo um momento de liberdade muito grande, ainda existem aqueles que preferem privar seus filhos de "viver", quando se deve deixar-los experimentar (com responsabilidade) e aproveitar para se auto-conhecer , crescer , moldar seu próprio caráter.

Williams faz questão de deixar isso muito mais claro com o nascimento de Grace, pois sua mãe praticamente a força a fazer tudo que ela julga ser algum bom, mas nunca deixa a filha escolher. Além de projetar nela inúmeros sonhos que nunca foram alcançados por ela. Isso é outra coisa muito recorrente na sociedade: filhos frustrados por realizar os sonhos e vontades dos seus pais e esquecerem seus próprios interesses. Falando assim parece algo tão irreal, mas ainda acontece muito , mesmo sendo uma coisa imensamente desnecessária.

"'Mudada de algum jeito' , disse Edith aturdidamente para Stoner. 'Não é mais a nossa pequena Gracie, de maneira alguma. Ela passou por muita coisa, e imagino que não queira ter de recordar...'" (p. 269)

Uma das coisas que mais gostei na narrativa, além da capacidade do autor de nos prender com uma história monótona, foi o fato de nos ser mostrado que para amar não tem idade certa. Stoner se casa com Edith achando que a ama, mas com o passar do tempo, ambos percebem que nunca existiu  amor entre eles. Quando Katherine se torna a amante de Stoner, mais que uma válvula de escape, ela é de fato amada por ele e ela também o ama. Essa relação escondida, marginal, em que eles se amam loucamente, nos mostra que não há um tempo certo ou idade definida para amar com sinceridade.

O livro apresenta uma capa dura linda, que de cara nos remete aos efeitos físicos do tempo em nós, a diagramação está perfeita, a fonte e os espaçamentos em tamanhos adequados e confortáveis, além de não encontrarmos erros gramaticais ou de concordância no livro. Uma bela obra para se ter na estante, a Rádio Londres está de parabéns pelo excelente trabalho.

"Dê certo modo, foi um triunfo. Todavia , ele continuou a pensar nisso uma atitude irônica e desdenhosa, como se tivesse sido uma vitória ganha por tédio e indiferença." (p. 251)

Uma narrativa incrível sobre nós, o tempo e a vida. Stoner é leitura obrigatória para todos aqueles que amam literatura, a forma de construção da narrativa que chega a ser impressionante e nos permite tornar  esta obra seja inesquecível. Assim, este fica como uma das minhas melhores leituras da vida. Eu não o recomendo, mas sim intimo você a ler esse livro.

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