Resenha|| O Ano Em Que Morri Em Nova York



"Tirar a dor é equivalente a tirar a vida. Porque, na hora em que abrimos mão da capacidade de sofrer, abrimos mão da capacidade de sentir." (Pág 229)


Titulo: O ano que morri em Nova York
Autora: Milly Lacombe 
Editora: Planeta de livros 
Ano: 2017 
Páginas: 256
               
           


Um livro sobre se conhecer, se amar , mergulhar no mais fundo de  si mesmo, sobre descobertas. Um romance brutal sobre amor próprio e como podemos descobri-lo.

O Ano Em Que Morri Em Nova York nos apresenta uma narradora que após 9 anos em um casamento, têm a relação com sua esposa interrompida por uma suposta traição. Nossa protagonista então, se acha perdida por não saber lidar com aquela situação: traída, sozinha, sem ter o que fazer e nem para onde ir. Todos os relacionamentos anteriores dela foram terminados por traições dela, e agora ela conhece o outro lado da moeda.

Cercada de amigas, a maioria delas ex's, ela percebe que não pode continuar naquela situação e decide partir para uma experiência na Amazônia. Ela está completamente disposta a encarar qualquer coisa para esquecer Teresa e se encontrar. A narradora sempre emendou seus relacionamentos antes, com um histórico de traição um pouco extenso, ela sempre esteve com alguém, e a solidão e vazio que a ausência de sua última parceira causa a deixa apavorada. E mesmo com tods os receios, ela parte pra essa aventura de auto-descobrimento.

"Agora, nesse novo lugar de nosso relacionamento, nem ciúme ela parecia ter. Mas é engraçado como, por insegurança e medo, nos adaptamos a lugares incômodos. (p. 63)

Durante a narrativa, a protagonista tem várias lembranças de sua vida, então conhecemos sua infância, adolescência, a aceitação da sua condição sexual e como se apaixonou várias vezes. Isso ajuda ao leitor a compreender melhor a personalidade da personagem, além de nos fazer enxergar diversos pontos importantes, não só no livro, como também em nossas vidas. Ela apresenta um crescimento lindo ao longo da história e as amizades que são construídas nesse caminho, são bem sinceras e verdadeiras.



Gostei muito do que a autora fez quando coloca a protagonista (que é a própria autora) no lugar que ela sempre colocou suas parceiras: no lugar de traída. Isso serviu para demonstrar a vulnerabilidade do ser humano e como cada um de nós encara as coisas, pois ela entra em um colapso interno quando "descobre" o que Tereza estava (supostamente) fazendo e apesar de sempre trair, suas ex's superaram a traição e tornaram-se suas amigas, nos mostrando que não é por se tratar de um término que é preciso odiar, detestar o ex. Achei muito bacana a autora trazer isso, para diminuir essa visão que ainda é tão forte em nossa sociedade sobre ex'namorados(as).

"A suspeita do chifre é, muitas vezes, pior que o próprio chifre de fato. Porque ela nos joga num lugar de incertezas e inseguranças onde não há vida, só medo e espera. Nesse quarto escuro, há desconfiança, observações, paranoia e pouca coisa além disso." (p. 62)

Algo que me deixou bem pensativo foi o fato de que a traição nunca foi provada, ou seja não sabemos de fato se Tereza traiu a protagonista ou não. Deixando uma reflexão: ela acreditou no que queria para mudar ou houve realmente uma traição? Isso deixou a obra ainda mais intrigante, me fez lembrar de como nós podemos ser irredutíveis quando acreditamos em algo, mas que precisamos ter mais certeza das coisas, antes de tomar alguma decisão. No caso da protagonista, ao decidir sobre o fim do relacionamento ela pode caminhar para algo maior que foi o conhecimento de si, o amor próprio, porém ter atitudes sem certeza pode não ser uma boa ideia.

Milly Lacombe nos apresenta uma narrativa muito bem criada e desenvolvida para que percebamos o quanto é importante e valoroso que amemos a nós mesmos, antes de qualquer coisa. A construção dos personagens e enredo nos passam uma sabedoria e um conhecimento de si sem igual.

A única coisa que não me agradou foi o fato do livro não ter capítulos. A obra é dividida em três partes e só. Isso deixa a leitura um pouco cansativa, mas sem tirar o brilho do enredo.

A capa está bem legal, bem colorida (do jeito que eu gosto) e somente as cores conversam com a trama da narrativa, a fonte é confortável e os espaçamentos bem colocados.Escrito de forma simples, este é um livro que não mostra somente o crescimento e evolução da personagem, mas que também nos leva a pensar sobre nossa própria existência e vida.

"O problema do preconceito é que ele cega, ofusca e impossibilita enxergarmos a humanidade no outro - e não existe violência maior do que não reconhecer a humanidade no outro. (p. 117)

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