Amiga íntima das Crônicas|| Um Crime Quase Perfeito




Eu sou uma mulher capaz de matar.


Pode parecer frio, até eu me surpreendo com o que fui capaz de fazer para o meu marido sofrer. Eu brinquei de ser Deus tirando uma vida, brinquei porque era o que ele merecia. A cada minuto que penso no que fiz me sinto ainda melhor. 

A melhor coisa que existe depois da vitória de uma batalha é a preparação. Se você preparar seus soldados para morrer, eles vão morrer com louvor. Mas se você preparar seus soldados para uma ideologia, você vence a guerra.

Eu matei meu marido. Com minhas mãos e um calibre 38. O coloquei no porta malas do meu carro e recebi minha recompensa: liberdade.

Casei-me muito jovem, quando todos acreditavam que eu não valia nada. Eu tinha 12 quando ouvi minha frase favorita: "Você não vale o que o gato enterra". Tive que ter um gato para saber o que ele enterrava, não fiquei feliz quando descobri.

As pessoas têm pouca tolerância com rebeldia, principalmente as que me criaram. Eu sei que deveria ser grata pela comida e pela moradia, eu não tinha nada a agradecer quando era uma obrigação.

Casei-me com 18 anos, a fim de botar a mão na minha herança, mas havia forças a conspirar. Todos a queriam e jogaria duro para conseguir. Eu era esperta e viciada em jogos. Lutei contra meu próprio sangue, conspirei e menti. Só pra ter liberdade da prisão que eles criaram em minha mente. Assim como eu eles adoravam o prazer de jogar com as vidas alheias e a minha era a favorita. Eles se esqueceram que para toda ação há uma reação.

A tia que me criou, Marlena era a que mais gostava. Vivíamos em pé de guerra. Eu e ela. Ela manipulava a todos pelos bastidores. Fez com que George Gregory se aproximasse de mim, me prometendo a tão sonhada esperança de libertação. O maior erro das pessoas que mentem para conseguir o que querem é que depois que conta tantas mentiras a verdade já se perdeu. Acaba acreditando nisso, e se torna a vida que escolheu.

Gregory. Bem, George me deu seu nome e nada mais, tudo não passava de mentiras inventadas por minha tia, que ele me contava. Juntos me enganaram. Então eu já tinha o dobro da minha idade. Era experiente, a ponto de dormir com os olhos abertos.

Até tentarem me matar.

Eu era uma ameaça aos negócios corruptos de Marlena e George. A primeira tentativa de assassinado foi por envenenamento. A segunda um acidente de carro e a terceira é quase assertiva foi sequestro.

Eu tinha que fazer alguma coisa pois a cada tentativa mais a beira do precipício eu ficava. O plano era fraco e irrisório. Me livrei de quem me traia. Fiquei sem amigos. Sobrando apenas minha tia e meu marido. Esperei pacientemente pelo deslize.

E ele veio pra me deixar mortificada: Gregory tinha um caso com Marlena

Planejei tudo com calma e cuidados. Era a única chance que teria antes de haver retaliação. Minha mente funcionava de várias formas diferentes, mas chegava a mesma conclusão: os dois pagariam com a vida.

Rotinas são em todo caso uma segurança. Ou uma premeditação.

Transferi o dinheiro inteiro da conta de Marlena para a de George. E deixei rastros para achá-lo. Haveria um confronto de forças e riqueza que resultaria em morte. Não tardou muito Gregory guardou sua pistola na maleta e eu sorri. Segurança a qualquer custo.

O segui.

Eles combinam de se encontrar e transaram, mas George era ambicioso não devolveria o dinheiro de Marlena, foi preciso apenas uma bala. Resolvido o problema, largou ela lá na cama do motel, morta.

Fase Um: Completa.

Com Marlena morta as coisas se complicaram, pois a polícia estava envolvida. George se sentia ameaçado. Queria me matar também, mas meu plano ja prévia isso.

Maldito dia em que conhecera a família Mackenzie, ele repetia pra si mesmo. Colocando as balas na arma, suspirou. Coitadinha dela, ele dizia, era uma pessoa tão humana e especial. Que não merecia aquilo, mas não teria jeito.

Confessou que tentará matá-la diversas vezes, e que agora o faria. Com calma e graça eu ri, com um gesto simples e deliberado tomei-lhe a arma das mãos e sorri. Era uma pessoa fria demais.

- Não querido, hoje é seu dia. - disse a ele com frieza.

Puxei o gatilho rápido, mas não atirei. O calor do momento não iria me fazer cometer erros. Ele morreria por suas próprias mãos.

- Tenho provas de que matou minha tia. - vi o ódio surgir em seus olhos azuis. Quase o cegando.

Claro que tem, ele repetia. Não acreditando em um palavra só do que eu dizia. O perturbei até que não lhe restasse mais nada. Foi fácil, depois do ódio, a gente fica vazio. E George estava vazio. Com suas próprias mãos tirou a própria vida.

Não me movi.

Fase Dois: Completa

Assisti seu corpo ir de encontro ao chão e o barulho ensurdecedor que causou. Estava tudo terminado. O ciclo acabou.

Eu fiquei bilionária. E livre.

Mas a pior miséria que existe é o consciente, que me consumia aos poucos por tudo o que fiz. Parecia que ninguém me achava digna de confiança, e eu criava paranóias para minha alma cansada.

O jogo que eu gostava, não fazia mais sentido, não havia mais nada dentro de mim, senão o vazio que me entorpecia, a vingança foi um prato que comi frio e me fez mal. Eu estava vivendo o inferno com eles. Mas era meu inferno pessoal, fazia sentido pra mim estar no meio da guerra. Era pra isso que eu vivia.

Os meus sonhos foram engolidos pela culpa. Surrupiar vidas alheias faz mal ao coração, não dizia aquela antiga lei celta: tudo o que você faz volta o triplo pra você mesmo. Talvez eu fosse incapaz de parar a mim mesma do ódio e da fúria que estava enterrada em meu coração desde criança. As influências ao longo da minha vida me fez chegar até aqui. Apenas não contava com a necessidade de redenção que cozinhava em fogo baixo sob minha pele.

Eu era uma mulher capaz de sentir remorso das mortes que eu trouxe para mais perto.

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