RESENHA || O HOMEM SEM DOENÇA



Título: O homem sem doença | Autora: Arnon Grunberg | Editora: Radio Londres 
                                                  Ano: 2016 | Páginas: 240
 

Avaliação:  
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O romance narra as desventuras tragicômicas no Oriente Médio de Samarendra Ambani, jovem e idealista arquiteto zuriquense de origem indiana. Ao participar de um concurso para a construção de um teatro de ópera em Bagdá, Sam é selecionado e convidado para ir ao Iraque. A viagem, iniciada em clima de ingênuo otimismo, rapidamente se transforma em uma experiência traumatizante: no país devastado pela violência, ele vivenciará a brutalidade da guerra na própria pele: enganado, absurdamente acusado de ser espião, é preso, interrogado e torturado, conseguindo retornar para a Suíça graças apenas à inesperada intervenção da Cruz Vermelha.

O homem sem doença nos apresenta à história de Samarandra Ambani, ou simplesmente Sam, um jovem arquiteto suíço, de origem indiana, que tem muitas ambições, e é extremamente metódico. Logo nas primeiras páginas, acompanhamos a trajetória desse jovem rapaz para o Iraque, onde encontrará outros arquitetos que participaram de um concurso para a construção de um teatro de ópera em Bagdá.


Enquanto nosso personagem está no aeroporto com sua adorada – e quase perfeita – namorada, Nina, ele se recorda de tudo o que aconteceu em sua vida, da morte de seu pai, de sua irmã que sofre uma doença degenerativa e, principalmente, de como Nina é perfeita para ele.
“Que amor você ter tirado o dia livre para me acompanhar, tem vontade de dizer. Que bom que você está aqui! Ele gostaria de dizer isso sem palavras por isso não diz nada. Sentimentos e palavras não combinam. Em sua opinião, a palavra mata o sentimento.”
Assim que desembarca em seu destino, ele é recebido por vários homens, que lhe dizem tratar-se de seguranças e é mantido preso em uma casa, sem contato com civilização. Tudo muda um dia quando ele decide fugir, e se vê numa situação pior: é tratado como espião e maltratado ao extremo. Voltar para casa parece ser um sonho impossível, mas se realiza. Tudo poderia melhorar se a vida não gostasse de lhe pregar várias peças e toda a história se repetir quando ele desembarca em Dubai algum tempo depois.

Tudo o que disse acima está na sinopse e, bem, revela bastante da história à exceção do final, que é surpreendente.
 
Quando solicitei esse livro para leitura, tinha uma ideia completamente diferente do que ele seria e fiquei levemente decepcionada com o que encontrei, primeiro porque achei a história extremamente confusa e não conseguia me conectar aos personagens, politizando minhas ideias.

O Sam é, em minha opinião, o estereótipo perfeito de um suíço. Ele, assim como o pai fez, quer demonstrar para o mundo que é perfeito para viver no país no qual nasceu. Ele se apega – ao extremo – no fato de que é um arquiteto suíço e, ao longo do livro e diversos acontecimentos, isso é repetido um zilhão de vezes. Ao mesmo tempo que ele é caricato, ele é ingênuo, pois,  logo que desembarca no Iraque nós já sabemos que tem algo errado, e é impossível não perceber isso, mas Sam não percebe e, com o perdão da expressão, se ferra.

Sua namorada também é uma personagem caricata, viciada em limpeza e trata o Sam como um animalzinho indefeso quando ele volta para casa. A mãe e a irmã aparecem na trama mais como um pano de fundo e foram personagens que, em sua simplicidade, me cativaram.

O desenrolar da trama acontece num frenesi e é impossível parar de ler por conta dele, e por conta da escrita viciante do autor. Esse livro poderia ser, facilmente, lido em uma sentada, mas eu precisei parar várias vezes por encontrar parágrafos machistas que me incomodaram muito. Sim, eu sei que posso estar sendo exagerada, mas isso me incomodou e preciso pôr isso para fora.
“- No Jockeys Bar - diz ele - ficam as africanas. Quer mulheres do leste europeu? Então vá até o Imperial Suites. Chinesas e filipinas: Stayin Alive, no Regal Plaza Hotel. Dê uma boa gorjeta ao porteiro, daí não precisa pagar a entrada. Mas, se eu fosse você, iria ao Jockeys Bar, anteontem chegou um avião só de africanas. Mulher é como peixe. Tem que ser fresca, senão você fica doente.
Apesar de extremamente incomodada com o que acontecia, não desisti da leitura e aí está a ambiguidade de tudo: adorei o final. Me surpreendi com tudo o que aconteceu com o Sam, mas achei incrível a forma como o Arnon nos conduziu para aquele final que não poderia ser diferente.


Mesmo com todas as ressalvas que tive com relação a essa obra, sinto necessidade de indicá-la, pois o autor domina as palavras de uma forma que nenhum outro autor que eu já tenha lido faz e, com isso, o leitor navega pelos rios e mares que ele escolhe. Estou particularmente curiosa para ler Tirza, outro livro do autor que recebe muito mais elogios do que esse.

Por fim, gostaria de informar que, sim, esse livro é cômico. É impossível não rir com tudo de ruim que acontece com o Sam, mesmo que seja errado fazê-lo.

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