AMIGA ÍNTIMA DAS CRÔNICAS|| AFIADOR DE ALMAS




Eu nunca pude ver o estrago que estava causando nas pessoas, mas mesmo assim eu gostava do que eu fazia, eu passei muito tempo reprimindo qualquer coisa que significasse que eu estava me tornado frágil e fraco. Depois de tudo, eu quis sentir que alguém me amava ou qualquer coisa que pudesse encobrir o vazio que pregou em minha pele seca. Talvez eu mereça o que eu criei para mim mesmo, a segunda chance vem com um preço alto demais para ser pago, e eu não estava disposto à paga-lo sozinho. Eu escrevo hoje para alguém que eu nem conheço, talvez eu nem me conheça de verdade por que eu sou assim quebrado demais para ser consertado.

De algum modo, eu gosto do que eu faço não que todos aprovem, eu me sinto insano. E, é sempre bom imaginar que eu posso fazer o que eu quero sem que aja consequências, porque eu não tenho nada a perder, nunca tive. Se isso fosse uma história clichê eu estaria falando “dela” pelo que está lendo, estou falando do meu trabalho de Afiador, mas conhecido como caçador de recompensas, com a devida morte embutida.

Com meu cigarro nas mãos ninguém me conhece, acha que sou um mero adolescente vagabundo com uma camisa xadrez, calça jeans surrada e com uma mochila vazia nas costas, eu poderia ser qualquer coisa, eu queria ser um salvador, mas eu era um adolescente vagabundo que cresceu sendo um egoísta, e, sem dinheiro na carteira para pegar o metrô de volta para casa. Eu não tinha casa.

A madrugada fria de abril me deixava enojado, as gotas daquela chuva idiota molhando meus sapatos, e ainda por cima apagando meu último cigarro, passei as mãos pelos cabelos recém cortados, mas continuava grande o meu cabelo era volumoso pelo menos gostava dele assim. O tédio tomava conta de mim as três da madrugada esperando para pegar o que deveria, e, entregar para a morte eminente. Pode ser que eu acredite que existe uma história clichê me esperando no final da esquina, mas como já presenciei, toda esquina tem seu final e nem sempre ele é suportável. Para um homem que talvez não tenha pena da humanidade tola.

Depois de pegar a minha recompensa sumo na escuridão da madrugada, acabando com meu dinheiro com bebidas e maços de cigarros, noite após noite era isso. Eu estava ficando vazio e inacessível, nada poderia me mudar. Eu não tinha amigos, nem inimigos talvez alguns, não que estivessem vivos para contar sua história, eu tinha uma família, não que eles lembrassem que eu ainda estava respirando.

Ascendo mais um cigarro para iniciar uma nova noite que não iria acabar bem para alguém no final das contas, ele não poderia gostar dos meus modos de adolescente vagabundo, mas, a opinião dele não valeria muita coisa depois de tudo, na verdade estava cansado de toda essa merda, mas eu deveria continuar com minha agenda lotada até o último dia do ano depois começar em outro lugar com outro nome outra vida, mas como disse eu gosto do meu trabalho sujo. Como alguém paga para ver o fracasso do seu semelhante? Só que quando uma alma era interrompida, uma pior tomava seu lugar.

Eu posso me sentir louco e vivo ao mesmo tempo, eu posso acabar com a vida do seu melhor amigo, com uma piscada de olhos, então ele vai estar curado de seus pecados e será amado por todos por ter sido um bom homem. Então nessa mesma noite todos os pecados dele foram transferidos para mim, em uma forma culposa sem sentido, pude ver em seus olhos os meus refletidos o cheiro de algo apodrecido dançava em meu nariz, algo como a morte, então ele era seu melhor amigo. Como se você não ligasse, você só quis ganhar o dia sendo o bom samaritano que não era.

Talvez eu devesse te dar um lugar entre as cinzas da sombria floresta perdida, onde todos podem conviver sem se preocupar em alguém tomar seu lugar, porque lá é o seu lugar perfeito para os mortos por mim. A floresta perdida é apenas o meu coração gelado e vazio onde não havia descriminação, o coração apodrecido esperando ser finalmente detido por algo mais frio que a noite infernal de abril.

Você nunca entenderá a si mesmo se não entender que você está destinado a morrer como um bom homem, que nunca foi. Não se assuste se a noite mais escura te abraçar porque é nela que você encontrar o que mais deseja. O seu fim. Não se preocupe pode não ser pelo adolescente vagabundo com uma blusa xadrez e um cigarro barato preso entre os lábios, mas terá alguém te esperando no final das contas.

Talvez eu possa ser o adolescente vagabundo, nunca neguei. Novamente a chuva de um dia quente fez questão de cair, me deixando totalmente irritado comigo mesmo por não ser o mesmo, que tinha orgulho de ser o que era quando criança. Eu disse que gostava dessa vida não que me orgulhasse dela. Gostar talvez não fosse o suficiente.

Entrei em uma loja 24h e comprei um chapéu, nunca fiz questão de usar um, mas parecia interessante o suficiente para me um ar de adolescente vagabundo com um chapéu, porque mais uma noite eu poderia ser o que eu queria, apenas por uma noite. Depois de sair da loja eu parecia um adolescente vagabundo usando um chapéu que provavelmente escondia meus olhos verdes, apenas isso.

Ao sair encarei o meu fim, nunca fiz questão de um fim épico, eu apenas liguei para um dos vários afiadores que existem por aí para me matar, eu não disse que eu seria bom o suficiente para conseguir fazer sozinho, eu também não queria que a culpa dos meus pecados fosse apenas minha, ele carregaria para si e eu seria um bom homem, por que enquanto um viver a guerra vai continuar para ter a insignificância de um ser o maior.

Coloquei as mãos no chapéu depois enfiei no bolso tirando de lá um maço de cigarros ascendi outro de muitos que eu provavelmente não ascenderia mais, ajeitei minha camisa xadrez, puxei o chapéu para trás olhei para o meu afiador, vi apenas desprezo e um sorriso cínico nos lábios finos avermelhados, não era um afiador e sim uma afiadora que carregaria meus pecados enquanto eu iria descansar na plenitude silenciosa, fumando um cigarro com uma blusa xadrez e um chapéu sendo um adolescente vagabundo, mas “sim, ele era um bom homem” já ouvia eles dizendo. Puxei a última tragada do meu cigarro e caminhei a passos firmes a encarando.

Ela se manteve firme e olhou dentro dos meus olhos, tudo o que percebi que tinha olhos azuis e tristes, ela não tinha nada, assim como eu e ansiava pelo fim de tudo, joguei o cigarro pelas ruas que ainda estavam molhadas, pelo menos não causaria nenhum estrago depois de tudo.

— Adeus, adolescente vagabundo — foi mais rápido do que qualquer outra coisa, agora eu era um bom homem.
[…]

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