AMIGA ÍNTIMA DAS CRÔNICAS|| CARTA DE DESPEDIDA


O carteiro deixou a correspondência lá fora, e como só eu estava em casa, não havia problemas em ir buscar, afinal, sou ainda uma pessoa prestativa, fazia três horas que tinha chegado do enterro da jovem Elliott, a garota tinha se matado, tomando doses exageradas de remédios para dormir. Fiquei me perguntando, se a irmã mais velha dela tinha cometido tal ato, porque facilitaram para que ela fizesse o mesmo? E porque de repente me bateu uma onda de culpa pela morte daquela garota com quem fiquei uma ou duas vezes? O envelope amarelo continha meu nome escrito com letras garrafais magnifica. Tratei logo de abrir.

De:M. Elliott
Para: Miller S.
UMA CARTA DEDESPEDIDA– escrita em letras maiúsculas, dando ênfase em todas as letras, comecei a ler...

“Daqui algumas horas provavelmente estarei morta, se meu plano der certo. Mas vou direto ao assunto, essa carta quando chegar em suas mãos a notícia da minha morte já deverá ter se espalhado, e eu espero que não chore no final, você sabe que não gosto de tristeza.

Querido amor, desde o dia em que te vi deitado no banco da praça dormindo feito um mendigo, eu não consegui explicar, era fascinação, obsessão ou até mesmo paixão. Eu era nova na cidade, e estava carente de amigos, mas estava feliz. Ver você deitado naquele banco com um capim na boca, deu uma vontade louca de te beijar.

Aquela foi a primeira vez em que vi você, e, não tardou para ver de novo, na escola no primeiro dia de aula, logo soube pela garota nerd, Elisa, que você era o jogador de basquete mais importante da escola, e que também era da minha sala no segundo ano. Os meses foram se passando e minha fascinação por você crescia feito erva daninha. Em algum momento encarando seu sorriso escondido na cantina, foi que me dei conta, eu te amava.

Meu coração acelerava quando eu via seu rosto, minhas pernas ficavam bambas quando você sorria para mim, eu nunca acreditei que você gostasse de alguma das garotas das quais desfilava todos os dias, eu me obrigava a pensar que mesmo estando com elas seus pensamentos era povoado sobre mim. Cheguei até escrever uma canção em meu violão sobre nós dois.

Talvez você ache o CD que gravei dentro do seu armário, coloquei lá esta manhã. Voltando para nossa história, foi no começo da primavera que você deixou aquela carta com um coração azul e dois ingressos para o jogo de basquete dentro do meu armário. Os ingressos que só tinham sido distribuídos para o time, e todas as garotas estavam se matando para ir com você, mas era eu quem iria. Você tinha me convidado e ainda deixado o bilhete me indicando o local para o nosso encontro. Fiquei contando os minutos.

Vesti a minha melhor roupa, passei o melhor perfume e fui ao seu encontro, devo dizer, você foi um danadinho em me levar flores, queria chorar de tanta emoção, e quando você entrelaçou nossas mãos juntinhas uma na outra eu quis gritar, me beliscar talvez, porque não estava acreditando nem um pouco que eu e você estávamos saindo juntos.

Ainda lembro de você jogar os dois ingressos no latão de lixo na rua e me convidar para ir com você no pub, quando você fez isso, eu acreditei veemente que você abriria mão de tudo para ficar comigo. E naquele momento você também tinha certeza que eu era o seu grande amor, para mim nada mudou.

Bebemos e dançamos, eu não me divertia há séculos, você me trouxe alegria, foi graças a você que consegui superar a morte de Sophie, minha querida irmã gêmea. Quando você me beijou sentia que estivesse flutuando, meus dedos puxando seus cabelos raspados para nunca desgrudar sua boca da minha. Miller eu vi o quando seus olhos mudaram de cor quando de leve minhas mãos te tocaram, mas também vi negação, você não me aceitava, e eu sabia desde aquela noite.

Mesmo me negando a ver o que estava na minha frente, eu queria você, apenas você. Voltamos a nos ver todas as tardes, ficávamos conversando até as estrilas brilharem no céu negro da meia-noite. Nós beijávamos tanto, que as vezes tinha que dar explicações esfarrapadas para Elisa, do porquê de meus lábios estarem inchados e outras vezes machucado. Como explicar sua cede voraz dos meus lábios, todas às vezes que me via.

Então veio a tragédia, uma fotografia, tirada de nós dois trocando caricias foi parar nos celulares dos seus amigos do time e de toda a escola, não me importei já que te amava e pensava que você sentia o mesmo, enfrentaríamos tudo... juntos, não foi isso que você prometeu?


Você. Sumiu. Desapareceu. Sem deixar notícias, na minha tolice e ingenuidade pensei que precisava de espaço para assimilar todos os acontecimentos. Esperei por dias e semanas o seu retorno, e você voltou, mas não era você que tinha voltado, não te conhecia mais, o meu Miller nunca mais voltaria, ele havia morrido. E me deixado sozinha.

Ninguém mais via a dor dentro dos seus olhos, e eu, eu via, vi você até me maltratar para provar que não me amava. Mas dentro de você, amor, todo seu corpo gritava meu nome, não me abalei nenhuma das vezes, estava até feliz em pelo menos ver você todos os dias na escola.

O único dia que você conseguiu me machucar, foi quando anunciou o namoro com Elisa no meio do refeitório, bem, ela era minha melhor amiga e você o meu grande amor, eu deveria ficar feliz, não é? Mas aconteceu totalmente o contrário. Comecei a tomar os remédios que minha irmã tomava para dormir, e cada vez em quantidades maiores, eu ficava fora de mim o tempo todo, só para você perceber que eu não estava bem, mas você não mais se importava comigo.

Miller meu amor, essa carta não é para você se culpar pela minha morte, e uma despedida, estou me despedindo com covardia do meu amor por você, não era para acabar assim, mas pense comigo, algumas coisas em alguma hora chega ao fim, o amor se vai, você se torna vazio e só a dor me consome nesse momento. Você vai encontrar outros amores, outras pessoas, outra vida. 

Não se preocupe comigo, amor, vou estar segura com minha irmã no céu, onde tudo é como deve ser, quero vê-la, nunca quis que fosse diferente, eu sabia que morreria como ela porque nosso vinculo nunca teria um fim. Eu só queria um último beijo seu, tão voraz e alucinante, que me deixaria tonta. Mas talvez em outra vida, quem sabe?

Eu te amo, e é porque eu te amo que estou te deixando livre, não se preocupe quando deixei a fita no seu armário com nossa música ninguém me viu, ainda sou seu amiga... com amor... 

sempre sua, Marcha Elliott."

Enxuguei as lágrimas, dobrei as três folhas da carta e quando olhei dentro do envelope, o cordão que Marcha nunca tirava do pescoço estava lá dentro, dizia que foi presente de sua irmã, e que nunca ia se desfazer dele porque, o colar mantinha o amor pela irmã intacto, talvez agora fosse minha vez de manter meu amor por Marcha intacto.

Passei o cordão pelo pescoço a agarrei o pingente na ponta apertando firmemente.

– Eu também te amo, Marcha Elliott – sussurrei.

Mas agora era tarde demais, para uma segunda chance.

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