INTERCULT|| A importância no Ensino de Literatura


Há um tempo estava em meus planos trabalhar com uma coluna diferente, que relacionasse as diversas culturas. Para quem não sabe ou tem pouco conhecimento sobre o assunto, o fator intercultural refere-se a interação entre várias culturas, munidos por uma integração apoiada no respeito entre as diversidade e o enriquecimento de vários conhecimentos, a nível global.

É com muita honra que iniciamos a nossa coluna com uma temática voltada ao Ensino de Literatura. Muito se fala sobre o assunto, mas ele é pouco aprofundado. Há uma infinidade de temáticas a serem trabalhadas nessa área, mas, antes de qualquer ensinamento é preciso refletir o motivo pelo qual a Literatura é importante, não apenas para a educação, mas para as nossas vidas! E para falar sobre o assunto, o Faces Em Livros convidou o Jhonatan Leal Da Costa, Professor Mestre em Literatura e Interculturalidade, para esclarecer um pouco mais sobre o assunto!




Jhonatan Leal da Costa é formado em Letras com habilitação em língua portuguesa e possui mestrado em Literatura e Interculturalidade pela UEPB, instituição onde leciona desde 2015. Suas pesquisas acadêmicas enfocam a Literatura brasileira contemporânea, os estudos de gênero e sexualidades, a Literatura infanto-juvenil e a Psicanálise.




   
       
1.Há quanto tempo você leciona?

Nove anos.


2.Como surgiu o amor pela literatura e pelo ensino de literatura?

Os livros chamavam a minha atenção desde a mais tenra infância. Inicialmente por uma questão de status. Na minha perspectiva infantil, apenas os “grandes sábios” eram capazes de carregar livros, acumulá-los e, principalmente, lê-los. Até os dez anos eu lia, portanto, no desejo sonhador de um dia me tornar um desses homens. Mas já no adentrar da puberdade me dei conta de que os livros eram mais do que degraus para uma possível ascensão social e intelectual: eles podiam ser divertidos. Na adolescência acabaram por se tornar minhas principais companhias. Através da convivência, por meio da literatura, com autores e personagens, pude ir vivenciando, juntos com eles, as mais diversas e ricas experiências humanas. Foi quando decidi que iria fazer isso para o resto da vida e me transformaria num estimulador da leitura literária: tornei-me professor de Literatura. 



03. Nossos docentes leem pouco?

Sim. Ainda que a jornada de trabalho de um professor no Brasil seja desumana, os professores, hoje, de uma maneira muito geral (é óbvio que existem as exceções, mas não é delas a que me refiro) não se interessam pela atividade de leitura no modelo tradicional. Chamo de “modelo tradicional de leitura” o ato de se preparar para ler e dialogar com um texto como quem vai, realmente, estudar: espaço apropriado, concentração, inibição de interferências externas, etc. Devido ao "boom" tecnológico, hoje, a leitura tem se concretizado, principalmente, na interação simultânea e ininterrupta do ambiente real com o fervilhar poli discursivo da virtualidade: na sociedade líquida apontada por Bauman, dificilmente somos capazes de ler um texto, estando sempre lendo múltiplos textos, os quais “espocam” em nossa frente, na maior parte das vezes, sem permissão. Estamos lendo. Mas lemos (com) postagens no Facebook, Blogs, reportagens, entrevistas, notícias, mensagens de WhatsApp explodindo ao nosso redor. Nesse caldeirão textual sedutor, a obra literária tem encontrado dificuldade para manter resistência. E os professores, até mesmo os de Literatura, infelizmente também estão encontrando dificuldade para privilegiar a leitura literária. 



04. Quais os maiores desafios que você chegou a enfrentar em sala de aula em relação a leitura de livros literários?

Tanto para alunos de ensino básico, como para alunos de ensino superior, o maior desafio a ser superado é a extensão do texto. O interesse pela leitura literária, através de um trabalho meticuloso, intenso e adequado, o professor consegue despertar. Fazer com que o aluno supere a extensão do texto, por outro lado, é um problema, principalmente quando se trata de longos romances. Walter Benjamin acreditava que, com o surgimento da imprensa, da tecnologia, e com a eclosão da Grande Guerra, fomos desaprendendo a narrar. Nesse sentido, uma sociedade com dificuldades de narrar, será, consequentemente, um povo com limitações de leitura. As novas possibilidades comunicacionais estão reestruturando a nossa maneira de plasmar o pensamento através da escrita: se expresse apenas em 140 caracteres, determina o Twitter. No Facebook novas postagens surgem a cada segundo. Estamos sendo programados para não tolerarmos o consumo de um material verbal e/ou imagético por muito tempo. Isso tem se refletido na impaciência de nossos alunos – e também na nossa – no tato com obras literárias de média ou longa extensão. 

05. De que forma a literatura está sendo usada na escola para que assim desperte o interesse dos alunos?

Vários professores da Rede Pública, principalmente os que mantém contato, se atualizam ou saíram recentemente da Universidade, ministram aulas de Literatura sob a compreensão do letramento literário, iniciado por Jauss e difundido hoje, no Brasil, principalmente, pelo Rildo Cosson. É uma perspectiva de ensino menos pautada na história e na crítica literária, e mais interessada na leitura da obra literária propriamente dita. Se antes as nossas aulas de Literatura estavam preocupadas em fazer-nos decorar datas, características de escolas literárias, dentre tantas outras informações que dificilmente sobrevivem, na mente do aluno, em sua saída do Ensino Médio, hoje elas se preocupam em fornecer para o aluno as competências necessárias para ele se tornar um leitor apto e reflexivo do texto literário. 


06. Como usar os livros na sala de aula?

Literários? Partindo, inicialmente, da experiência do aluno. Realizando um levantamento de horizonte de expectativas, em que o professor estimula o aluno a se posicionar sobre os temas que serão abordados na obra escolhida para a sua sequência didática. Só após o aluno ter contribuído, na aula, com o testemunho de sua experiência, o professor deve começar a leitura e interpretação da obra literária, em que será a vez de escritores e personagens manifestarem suas próprias perspectivas e visões de mundo. É importante que, nesse processo, o professor faça o estudante perceber que aquela narrativa, dramaturgia ou poesia “chata e antiga”, boa parte das vezes escritas há mais de um século, tem algo a dizer sobre o que ele viveu, está vivendo ou, quem sabe, viverá. Caso o texto seja contemporâneo, o professor, ainda assim, deve facilitar a compreensão, por parte do aluno, de que aquele material dialoga com a realidade vivenciada por ele. O conhecimento prévio do estudante, exposto por ele no início do processo, é confrontado pelo conhecimento novo, trazido pelo texto literário, e gera o aprendizado. A experiência humana, vivida pelo leitor e representada na obra, será o vínculo que fará o aluno se manter interessado na leitura do texto e, portanto, deve ser muito bem aproveitada por parte de quem leciona. 


07.Como escolher um título para indicar para a classe?

Vários fatores devem ser considerados. Às vezes um título pode não vir a soar prazeroso para a leitura do aluno, mas é importante para a sua formação intelectual. Em outros casos, determinado título pode indicar uma leitura de fruição, de entretenimento, mas com pouco a acrescentar no desenvolvimento de competências de leitura literária para o leitor em formação. De todo modo, creio que, antes de levar um texto literário para sala de aula, o professor deve ter a sensibilidade de perceber se a turma está aberta a discutir sobre as temáticas trazidas por aquela obra. Pouco adianta levar Iracema para uma turma de 1º Ano se os alunos estiverem totalmente fechados para dialogar, com José de Alencar, através daquele texto. Por outro lado, o professor deve se manter atento para não cair no perigo de estar sempre abrindo concessões no desejo de tornar a leitura do aluno prazerosa. É preciso, sempre, se perguntar: que conhecimento ou qual habilidade desejo que meu aluno adquira através da leitura desse texto? 


08. Existe bibliotecas suficientes nas escolas? Cabe a elas estimular a leitura de literatura?

Sim. E possuem livros excelentes. O problema é que, nem sempre, os professores de Literatura fizeram a leitura das obras dispostas nas bibliotecas das escolas em que trabalham, o que dificulta o ensino da disciplina por meio desses livros. Outro problema em relação às bibliotecas é o acesso: quando os livros não estão fechados em armários com cadeados, estão impedidos de serem disponibilizados para locação. 


09. Qual seria a melhor forma de ler para os alunos?

Com sentimento. Diferente dos textos informativos, a linguagem literária é carregada de emoção. O sentimento impresso nas palavras escolhidas minuciosamente pelos escritores deve ser valorizado e exposto pelo professor no instante da leitura. Ler uma obra literária é se colocar diante de uma experiência humana, viva, pulsante. As palavras, dentro de um texto literário, possuem relevo. É preciso sensibilidade para percebê-los e transpassa-los para os ouvintes no momento da leitura de literatura em voz alta. 


10. Pode se dizer que a leitura de clássicos está ultrapassada? E o que dizer sobre essa nova febre por literatura estrangeira atual?

Os clássicos nunca morrem e, justamente por isso, eles são clássicos. Tratam-se de obras atemporais e universais, as quais se apresentam como verdadeiros tratados sobre a condição do humano, independente do tempo ou espaço nos quais ele está inserido. Amor, morte, dor, sofrimento, ciúme, inveja, separação, partida, chegada, encontro, desencontro, solidão, sexo, poder: os clássicos nos apresentam uma melhor compreensão sobre esses temas tão comuns à experiência do sujeito, levando-o a tomar uma melhor compreensão de quem é e em quais condições/circunstâncias está posicionado. A “literatura estrangeira atual”, mais precisamente os Best-Sellers, podem não realizar a façanha de abordar essas temáticas em profundidade e, por isso, costumam ser facilmente esquecidas e substituídas. Não acredito, porém, que a superficialidade seja um requisito necessário para essas obras. Vários Best-Sellers vieram a se tornar canônicos, clássicos, a exemplo das obras do Alexandre Dumas e do Charles Dickens. Creio que, para quem está iniciando na formação leitora, as ficções de puro entretenimento são ótimas para desenvolver o estímulo por esse tipo de atividade. Leitores maduros também sentem a necessidade, por diversas vezes, de estabelecer contato com um texto de menor densidade e exigência intelectual, podendo encontrar nesse tipo de obra um escape prazeroso. 



11. Poderia nos deixar uma mensagem de incentivo acerca da leitura e do amor por literatura?


Amor não se impõe. Se constrói. O mesmo vale para o ensino de Literatura, caso seja objetivo, por parte do professor, desenvolver em seus alunos o amor pelas obras literárias. Apesar disso, de nada adiantará desejar semear o que não possui, e esse tem sido o ponto nevrálgico de boa parte de nossos professores de Literatura: sujeitos que não conhecem, não se interessam e não são apaixonados por Literatura, reclamando e criticando o fato de seus alunos também não o serem. A construção do letramento literário, portanto, deve partir, sempre, primeiro no formador. Sem um professor que ama Literatura, dificilmente teremos alunos apaixonados pela grandeza e complexidade das obras literárias. 




Confesso que foi empolgante ler e reler cada pergunta feita e resposta recebida. As dúvidas estão esclarecidas e o amor por Literatura e obras literárias só aumentou. Dúvidas? Deixem nos comentários.



13 comentários

  1. Hey, Amanda!
    Que iniciativa mais linda!! Adorei a nova coluna.
    Lindo o pensamento do Jhonathan. É inenarrável a felicidade de saber que ainda existem professores comprometidos, não apenas com a obrigação de ensinar, mas também o amor por lecionar.
    Mil beijokas! entreumlivroe-outro.blogspot.com

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  2. Muito bacana a ideia da coluna, realmente gostei bastante da entrevista com o professor, e lendo a entrevista vi que isso parece uma preocupação de muitos professores né? a falta da real leitura, uma leitura mais aprofundada com um conteúdo real e comprovado, e é uma pena.

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  3. Oiii, tudo bem?
    Eu realmente amei essa coluna e como futura educadora sei a devida importancia, mas com o tempo os alunos e alguns professores deixam de passar isso.
    Beijinhos

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  4. Sempre é bom trazer para os leitores novos assuntos, assim temos a oportunidade de falarmos daquilo que tanto gostamos de uma forma adaptação mais abrangente que sabemos... Demais essa coluna! Parabéns.

    Atenciosamente Um baixinho nos Livros.

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  5. Que linda essa nova coluna! Achei a ideia muito boa e sensível, e gostei demais da entrevista também. Quando tava no ensino médio, costumava dizer que fosse professora um dia, seria de Literatura. A melhor parte é que isso pode acontecer no futuro, já que pretendo fazer Letras logo logo!

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  6. Oi!!
    Que legal essa coluna nova, adorei a entrevista, enquanto lia lembrava da professora que me alfabetizou e lembro dos livrinhos que ela oferecia a nós. Sei que a gente teve que ler alguns livros que não são tão atraentes, mas pensando bem eles são necessários até mesmo para termos um maior conhecimento.
    Adorei o post.
    Beijão!

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  7. OOi!
    Amei a nova coluna! Com a entrevista consegui assimilar várias coisas que o Jhonatan disse a coisas que vivo ou já passei. E claro, com muitas coisas concordo. Pelo menos nas escolhas que já estudei, não acho que tratam a literatura como devia ser tratada. Ou nem tratam. As vezes é apenas passada, como obrigação, mas não se mostra muitas vezes como ela pode ser divertida e prazerosa. Com isso acho que alavancaria o desejo de ler das pessoas.

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  8. Olá,
    Achei a iniciativa muito interessante e os levantamentos que Jhonatan fez muito válidos.
    Isso principalmente na questão de como fazer uma indicação de obra para leitura. É bem complicado quanto à extensão e à relevância que essa obra terá para o ensino de literatura. Muitas vezes é difícil chamar a atenção com um livro que acha-se fundamental para o ensino da disciplina.

    http://leitoradescontrolada.blogspot.com.br/

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  9. Adorei esse post. Eu fico muito feliz pois na minha escola é se dado mais literatura do que gramática hahahaha
    Beijos

    http://blog-myselfhere.blogspot.com.br/

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  10. Que bacana! Eu também sou estudante de Letras-Inglês pela UECE. E é impressionante como o há grande desinteresse por grande parte dos iniciantes na graduação. Estou somente no segundo semestre (e parado, por conta da greve que já dura há 4 meses!) mas cada dia é uma grande vivência dentro desse universo das "Letras" e como é bom conhecer e estudar melhor a Literatura, seja estrangeira ou nacional. Tenho ótimos professores e ótimos colegas. Realmente me encontrei no curso e um dos grandes impulsos para escolher tal formação foi realmente o amor pela literatura.
    Excelente post, amei!

    Abraço;

    http://estantelivrainos.blogspot.com.br

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  11. Minhas aulas de literatura sempre foram um grande alívio durante todo o meu período escolar Eu acho muito importante que os alunos conheçam bem os autores nacionais e internacionais, muitos ajudaram a compor o mundo que conhecemos hoje.

    http://laoliphant.com.br/

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  12. Oie
    muito legal o post, eu sempre gostei muito de literatura, eram minhas aulas favoritas de longe na escola e hoje sinto muita falta

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  13. Oiii!! Vou ser bem sincera, acho que a leitura deve ser incentivada, mas obrigar o estudante a ler algo é terrível. Tive esse problema, e fiquei por anos sem ler, justamente por ter sido obrigada a ler coisas que eu não gostava. Acho que vale indicar, obrigar tira o prazer que é ler.
    Beijos

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