Coluna|| Amiga íntima das crônicas|| Eu, você e o tempo







Era uma manhã normal de aula, enquanto dirigia para a escola eu pensava nas coisas que via a minha volta.
O sol não tinha saído por completo ainda. Era uma manhã fria e pouco iluminada. Apesar disso, pássaros cantavam e voavam de árvore em árvore. Plantas brotavam e floresciam cada uma mais majestosa que a outra. Alguns jovens corriam pela calçada enquanto alguns idosos caminhavam conversando sorridentes atrás deles. Alguns homens saiam de paletó e gravata para trabalhar e enquanto suas esposas com seus bebês de colo acenavam do jardim. Algumas mulheres com salto alto e outras com sandália rasteira saiam com o mesmo objetivo de outras casas.

As pessoas a minha volta pareciam felizes e realizadas, enquanto eu não fazia ideia do que iria ser quando crescer. "Crescer" é na verdade um modo de se falar. Eu já tenho 22 anos. A questão é que enquanto a vida parece se mover para todo mundo, eu sinto como se estivesse apenas observando ela passar. Às vezes eu sinto que preciso esvaziar a minha bagagem e selecionar o que é útil na minha vida. Criar sonhos novos, lutar pelos que ainda podem ser conquistados, ler mais, viajar mais, ir mais vezes ao cinema, fazer compras, encontrar um namorado... Fazer qualquer coisa que me faça sentir mais que uma expectadora da minha própria vida.



Eu sei, estou sendo muito dramática. Eu ainda tenho muito tempo pela frente e muita coisa pra viver. Só que mais uma vez esse é o ponto: eu não sei o que esperar do amanhã. Eu não sei nem se vou ter um amanhã. Quando eu paro e penso “se eu morresse hoje eu morreria feliz?” A resposta é clara e direta: Não.

Com esse pensamento eu finalmente chego ao estacionamento da escola. Olho em volta e mais uma vez vejo no semblante das pessoas que todos eles sentem-se realizados. Ou isso ou são ótimos atores. Respiro fundo e saio do carro. Vai ser um longo dia. Eu nem sei o motivo real de tanta reflexão. Talvez seja só TPM. Sigo o corredor e vou para a sala de aula.

Quando eu entro na sala a primeira pessoa que vejo é você. Não é como se a sala estivesse vazia. Tenho quase certeza de que fui a ultima a chegar aqui, quer dizer antes do professor claro que por algum motivo estranho, tendo em vista que ele nunca se atrasa, está atrasado.


Você está lindo como sempre com sua calça jeans e camisa branca. Quando sorri você joga a cabeça um pouco para trás o que faz seus cabelos castanhos claros caírem um pouco em seus olhos quando retorna. Seus braços cruzados na altura do peito mostram seus músculos fortes e peito definido, mas não foi isso que me conquistou. Foi o seu sorriso fácil e seu coração do tamanho do mundo. Foi o fato de você nunca classificar as pessoas por "negro" "gay" ou "crente", mas como “amigos”. Foi, sobretudo, seu abraço forte e quente todas as manhãs. Esse que se tornou o ponto forte do meu dia sem que você se quer percebesse.

A sala esta em polvorosa, todos conversam entre si e ninguém realmente escuta nada, e eu só vejo você. Eu continuo te observando enquanto me encaminho para uma das cadeiras vazias no fundo da sala. Deposito minha mochila no chão ao meu lado, mas não me preocupo em abri-la. Preciso te observar agora, antes que você perceba.

Os pensamentos dessa manhã, sobre o que eu perdi, o que eu quero ter e o que eu realmente posso ter, preenchem a minha mente. Apoio meus braços no encosto da cadeira da frente para te observar melhor. Mais uma vez me sinto como uma telespectadora da vida. Lágrimas escorrem dos meus olhos antes mesmo que eu perceba. Uma sensação sufocante sobe pelo meu peito e me faz engasgar. Solto um gemido baixo e como se você pudesse ouvir através de todo esse barulho, seu olhar segue na minha direção.

No momento em que nossos olhos se encontram seu sorriso se desfaz. Baixo a cabeça rapidamente e encosto a testa em meu braço. Não quero que você me veja assim. Não quero que você me olhe agora. Não preciso de você nesse momento. Mesmo que você seja exatamente o que eu quero.

Sinto a sua presença antes mesmo de te ver. O sangue pulsa em minhas veias e meu coração dispara. Não preciso erguer a cabeça para saber exatamente onde você está: de pé ao meu lado. Unindo todas as forças que me restam me recuso a olhar pra você. Mas você não é de desistir fácil, não é? Você senta na cadeira ao meu lado e me puxa para um abraço e nesse momento o mundo é perfeito.

Seu abraço é quente e apertado. Transmite paz, amizade, carinho....Tudo. Até o amor que você se quer sabe que eu almejo. Encaixo o rosto na curva do seu pescoço, o melhor lugar do mundo pra mim, e ficamos assim por alguns minutos.

Já recomposta digo em sua garganta: - você não pode fazer isso sabia? Me abraçar assim deveria ser crime. Você não sabe o que o seu abraço faz comigo. - Tento erguer a cabeça e esboçar um sorriso de "obrigada" quando nossas bocas se encontram em um beijo apaixonado. Se eu achava que seu abraço era a minha ruína o que vai ser de mim agora? Esse beijo é tudo o que eu sempre quis e tudo o que eu sabia que nunca iria ter. Eu estava de boa com isso. Até agora. Como fazer para esquecer esse beijo? Como fazer para voltar ao status de amigos quando o que eu mais quero é ser a sua namorada?

Cedo demais nossas bocas se separam e o beijo termina. Mas nenhum de nós abre os olhos. Você encosta a sua testa na minha e tentamos controlar a nossa respiração.

- Oh, Deus. Isso foi... Uma má ideia. - Eu digo.

- Então estamos ferrados. Porque eu não consigo mais parar. - Você diz antes tomar a minha boca na sua mais uma vez.





16 comentários:

  1. Oiii Fabiana,como vai?
    Que crônica incrível é essa garota? Além de ser muito bem escrita, confesso que me prendeu de certo modo e quero mais e mais <3
    Beijinhos

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  2. Owmm Morgana, obrigada pelo comentário. Fico imensamente feliz que vc tenha gostado. Obrigada por me visitar e volte mais vezes quem sabe não teremos mais por aqui ;) Bjs

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  3. Olá!
    Amei! O enredo e teu modo de escrever. E agora a pergunta e então? Cadê mais rs
    Bjs

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    1. Owm Marcia, estou amando a receptividade da minha historia. Quem sabe não venha mais por ai ne? Bjs querida, obrigada por me visitar ;)

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    2. Faby... Que lindo! Me prendeu do começo ao fim... Sua escrita é fluída, gostosa de ler. Parabéns! E que venham toneladas de textos assim!

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  4. Owmm Lu obrigada. É sempre bom ouvir elogios de pessoas que estão no mundo da leitura, porque além de sinceros são uma ótima referencia. Bjs

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  5. Muito bem expressado! Esse é o sentimento de muitas pessoas hoje. O tempo está passando e nós apenas o assistimos!

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    1. E triste mas é a verdade Dani :( Obrigada por ler e comentar <3 Bjs

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  6. Olá, tudo bem?
    Menina! Amei seu texto!!! Eu me Shinto mui to assim, como se somente assistisse a minha vida passar.
    Não para de escrever não, vc escreve muito bem!
    Beijos, Larissa (lapidando.com.br)

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    1. Larissa, tudo ótimo, vou dizer que muito melhor agora depois de um elogio desse. Muito obrigada por ler e comentar. Volte sempre. Vou pensar no seu conselho de continuar a escrever kkkkk. Bjs

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  7. "Eu sei, estou sendo muito dramática. Eu ainda tenho muito tempo pela frente e muita coisa pra viver. Só que mais uma vez esse é o ponto: eu não sei o que esperar do amanhã. Eu não sei nem se vou ter um amanhã. Quando eu paro e penso “se eu morresse hoje eu morreria feliz?” A resposta é clara e direta: Não."

    Me identifico e muito! Amei!

    Carolina Gama

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    1. Oi Carol, que bom que vc gostou. Espero que volte para ler as próximas. Bjs

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  8. Oi muito legal o seu texto, gostei bastante da maneira que você escreve, sem dúvidas virei aqui mais vezes prestigiar os seus textos, pois gosto muito desse tipo de publicação.
    Beijos

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    1. OI Kris fico muito feliz que você ter gostado do texto. Obrigada pela visita e por nos prestigiar. Volte sim, será sempre bem vinda Bjs.

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  9. Olá Faby, muito legal seu texto, a sua forma de se expressar continue que com toda certeza vai ter gente para acompanhar;D

    umreinomuitodistante.blogspot.com

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    1. Olá, nossa obrigada pelo carinho. Me senti muito feliz agora <3 . Volte mais vezes para nos visitar. Bjs

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