Amiga íntima das crônicas|| Eu sou Humana





“ Trabalho, universidade, cursos e mais cursos, mestrado, doutorado, afazeres domésticos, marido,
filhos, familiares, amigos, ela dança, ela canta, escreve, pinta, ainda tem tempo de se manter bela, arrumada, seu cabelo sempre sedoso, unhas bem feitas, perfumada, tudo o que põe a mão faz bem feito, tudo o que você pode imaginar ela faz... em tudo ela é ótima, tem tempo para tudo, os professores afirmam “a melhor das alunas"; o patrão diz “melhor funcionária”; sua família inteira tem orgulho da tal estrela, mesmo que às vezes não tenham muito do tempo dela, ela se orgulha de quem se tornou e de onde conseguiu chegar. 

Tudo isso parece ter saído de um comercial americano antigo, “A Anna é uma mulher incrível e muito feliz, ela é completa!”, quando vamos nos tornando adultas, independentemente de ser mulher ou homem, a vida vai nos exigindo que sempre nos esforcemos ao máximo para atingir a perfeição, cedendo as exigências, sendo o melhor que podemos ser, nos envolvendo em milhares de atividades e achando absolutamente normal. Ora o que tem de errado, afinal não era o que queríamos? Não é exatamente assim que queremos ser vistos? A sensação é de êxtase “Nós somos os melhores", não é!? COMO ASSIM VOCÊ NÃO QUER MAIS TUDO ISSO? Tudo era um sonho maravilhoso e porque agora dói? Antes havia prazer, havia vida, e porque agora eu praticamente faço tudo mecanizado? Estou cansada, estressada, eu não tenho mais tempo, entrei nesse mundo de cabeça e não sei mais como voltar, faz parte de mim...

Acordei num domingo de manhã chuvoso, cedo, com esses pensamentos me sondando. Como sempre, já tinha milhares de afazeres, mas esse dia tinha sido destinado para que eu abrisse os meus olhos. Aos domingos meu pai costumava me acordar aos abraços; já tinha esquecido daquele conforto caloroso dos domingos de manhã. Naquele dia em especial ele também acordou cedo, mas mal sabia dos meus compromissos. Ele veio até meu quarto e me indagou: "Você ficará em casa hoje, querida?", eu pensei por uns 2 minutos naquela pergunta; a palavra casa vagou na minha mente, não pelo lugar, mas pelas pessoas. Por não responder, o meu pai acreditou que era uma afirmação, já que todas as vezes que ele perguntava eu fazia um discurso enorme da rotina do domingo e então me disse : "Que bom que ficará em casa hoje, eu estou com saudades da minha menina, eu amo você". Naquele momento me segurei para não chorar, eu ouvi meu coração bater. Desmarquei tudo o que tinha que fazer naquele dia, eu descobri que ainda era humana, quase esqueci do que era o amor dos meus pais, da minha família, quase esqueci do que era ter um dia de plenitude, de dizer “eu te amo”, de sair sem hora para voltar, eu era só um belo fruto da grande fábrica de adultos capacitados e perdidos, mas eu acordei.

Você talvez se veja exatamente assim, cheio de atividades, por fora é visto como o melhor de todos, o destaque, mas por dentro, se esqueceu do que é viver! Está ocupado demais para lembrar disso. Ser como Anna é inalcançável; Anna não é humana, acorde! Você não é perfeito, seja um humano feliz.



5 comentários:

  1. Eu tento muito não me tornar uma escrava da perfeição, dos afazeres, dos compromissos inadiáveis. Até do blog eu tento ver sempre se não está me aprisionando publicar todo dia, ler livros que não contribuem com meu crescimento. Seu texto foi mais um alerta em relação a mecanização das nossas ações.

    Beijos!

    ResponderExcluir
  2. Uau, seu texto me tocou! Realmente, hoje em dia temos tantos afazeres que é até difícil termos tempo de pensar que não estamos vivendo de fato, apenas realizando ações mais e mais mecânicas, para agradar mais aos outros do que a nós mesmos.
    Parabéns!

    ResponderExcluir
  3. esse texto ficou realmente tocante, faz a gene parar e pensar se não estamos agindo como Ana...
    parabéns... me deixou pensativa eheheh
    bjs...

    ResponderExcluir
  4. Olá... Parabéns pelo texto! Ficou perfeito e extremamente verdadeiro com relação a como vivemos nos dias atuais, repletos de afazeres, que algumas vezes, passamos por cima de nós mesmo para conseguir "dar conta de tudo"... bjs

    ResponderExcluir
  5. Oi, tudo bem?

    Ahhh, que texto inspirador e daqueles bem "tapa na cara"!
    Eu tenho uma rotina puxada, mas fins de semana, para mim, são sagrados. Especialmente domingos. Nossa, me recuso a sair de casa (de preferência do meu quarto hahaha).
    O ruim de se ter tanta coisa para fazer e tão pouco tempo é que, quando deixamos de fazer algo, nos sentimos sempre um fracasso. Eu tenho passado um pouco disso no meu trabalho, tenho me sentido pouco valorizada, porque minha chefe acredita que eu seja um robozinho, não uma pessoa. Mas a gente vai levando, né. Depois que criei uma rotina de meditação tenho levado a vida mais na desaceleração, porque correr o tempo todo é muito desgastante.
    Achei seu texto muito importante e espero que muita gente o leia e se identifique! :)

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

    ResponderExcluir

® Faces em Livros | Layout por A Design - Ilustração por Graciele Paiva